Thursday, 23 June 2016

Off I went to Kolkata!


Para perceber melhor as Missionárias da Caridade decidi ir a Calcutá. Kolkata, o nome atual. É lá que fica a casa mãe desta Ordem Religiosa.
O trabalho que fazem é simplesmente extraordinário. E absolutamente fascinante a forma como o voluntariado está organizado. Chegam voluntários de todo o mundo, de diferentes idades e, após um curto "briefing", fica tudo a postos para pôr "as mãos na massa", mas mesmo! Duro física e emocionalmente mas que nos dá sentido e fica-se cheio, quase a transbordar! 
O cuidado com a privacidade e a vida de cada uma destas pessoas tocou-me o coração. E por isso mesmo, não há fotografias a não ser devidamente autorizadas no último dia de voluntariado. A mim nem me fez sentido usar a autorização a que tinha direito. Perante o que vi e vivi, o direito à privacidade e dignidade gritam de tal forma que não faz sentido partilhar vidas de pessoas que não podem dar validamente o seu consentimento. Depois, para experiências como esta não há palavras nem imagens que as consigam retratar. O contacto com esta humanidade merece o maior respeito do mundo e cada um sairá ou não deste tempo com a sua lição para a vida. 
Eu saio com um enorme sentido de gratidão por cada olhar, cada sorriso, cada toque, cada abraço, cada curtíssima conversa e até as lágrimas que caíram na minha presença. Foi tempo de ter contato direto com o sofrimento, a dor, a fragilidade, a debilidade, a incompreensão, a dependência... que fazem igualmente parte do mundo. 
Há sempre a tentação de perguntar Porquê? Ou Para quê? a Deus para quem tem fé ou ao Universo para quem não acredita. Para mim é mesmo impossível não ligar todas estas realidades a Deus. São vidas que transcendem o meu entendimento mas que me fazem olhar para a vida com mais humildade. No seu verdadeiro significado, ou seja, a verdade que estas vidas são no mundo e para o mundo.

A única fotografia que tirei numa das casas em que trabalhei foi a uma oração
de que faço a tradução aproximada:

ELE CONTINUOU

Desde a sua infância que Jesus teve os inimigos mais mortais, MAS MESMO ASSIM ELE CONTINUOU.
Jesus foi ignorado e menosprezado durante trinta anos, MAS MESMO ASSIM ELE CONTINUOU.
Jesus nem sequer foi bem compreendido pela Sua mãe, MAS MESMO ASSIM ELE CONTINUOU.
Jesus teve a pior das interpretações sobre as Suas mais bondosas ações, MAS MESMO ASSIM ELE CONTINUOU.
Jesus nunca se afastou daqueles que O odiaram, daqueles que O odiaram de forma vingativa, daqueles que conspiraram contra Si, daqueles que O difamaram nas Suas costas, daqueles que fizeram tudo o que puderam para O destruir e Ele sabia que eles acabariam por vencer, MAS MESMO ASSIM ELE CONTINUOU.
Jesus até suportou um sentimento de absoluto abandono por Deus seu Pai, MAS MESMO ASSIM ELE CONTINUOU.

Depois de ler esta oração, o meu coração quase que parou. Sei a história de Jesus de trás para a frente. Sei que Jesus experimentou todos os piores sofrimentos e nunca duvidou do seu caminho. Sei o exemplo que deu ao mundo. No entanto ali com a experiência desta humanidade ficou claro que há alguma coisa muito forte que podemos começar a experimentar nesta vida mas que só ficará clara DEPOIS...


Saturday, 18 June 2016

Hindi e Tuga, brincadeiras com água!

A excitação em que a Hindi e o Tuga estavam quando voltámos de férias foi indescritível!!! Saltos, mordidelas, lambidelas, enfim... Foi mesmo bom chegar a casa e sermos recebidos com tanta animação. Cresceram imenso, entretanto, já estão com seis meses.
Hoje, fim de semana, conseguimos passar mais tempo a brincar com os dois. A Hindi se tivesse de ser um dos elementos, seria água. Adora! Cada vez que vê uma mangueira ou água nalgum sítio lá vai ela. O Tuga é muito brincalhão, ótimo a apanhar bolas e estar sentado à sombra ou perto de um ar condicionado.
Enquanto estava a brincar com a água com a Hindi, o Tuga sempre sem achar muita graça a fugir. Até que devagar, devagarinho lá se aproximou e, a partir de hoje, parece-me que também se vai juntar mais às brincadeiras aquáticas. É o máximo vê-los a brincar e a fazerem coisas novas!



Thursday, 16 June 2016

Kavita, que luz!


No primeiro dia que fui à casa das Missionarias da Caridade com crianças deficientes voltei, literalmente, com um "murro no estômago". Que realidade, que dureza e ao mesmo tempo que beleza. Que grandeza tratar destas crianças quase todas com mais do que uma deficiência... São mais de 40 e muito poucas compreendem inglês. A sua língua é o hindi. Como interrompi as aulas de hindi, a coisa estava complicada... Mas é uma maneira de aprenderem inglês.
O cheiro da casa que se potencia com o calor abrasador de Deli, torna a experiência forte e tão humana... Para mim, nada, nada fácil. As crianças querem atenção através do toque, por isso, quase todas pedem para serem tocadas e querem tocar-me. Saí de lá completamente abalada e sem saber se conseguiria voltar.
Rezei. E tenho a certeza que só a oração foi capaz de me encher de força para voltar. E fui surpreendida.
É aqui que entra a Kavita, uma rapariga com 12 anos, cega e com mais alguma deficiência mental. No segundo dia, sem lhe dizer o meu nome, a Kavita assim que ouviu a minha voz trauteou a música que lhe tinha ensinado no primeiro dia. Fiquei absolutamente fascinada e com o coração a transbordar de alegria. 
As dúvidas que tinha sobre não ter conhecimentos técnicos para ajudar estas crianças talvez não fossem assim tão importantes. Este sinal só pode ter vindo de Deus para me envolver numa realidade que nunca imaginei ser capaz de contribuir de alguma forma. Então, vamos a isso! Sem grandes compromissos, pouco a pouco, a fazer só o que sinto que sou capaz. 
A Kavita foi uma revelação porque percebe inglês e sabe braile em hindi e em inglês. Comecei a ditar-lhe palavras em inglês e ela sempre a protestar com uns sonoros hum hum  a querer fazer mais e mais. Ficou ao rubro quando lhe ditei as várias partes da cara ao mesmo tempo que lhe tocava para que ela percebesse o que estava a escrever. Uma ternura. 
A Kavita entrou-me no coração e agora todos os dias cantamos, tocamos nos braços uma da outra e claro muitos muitos ditados!

Wednesday, 15 June 2016

Missionárias da Caridade

Há muitos, muitos anos que tenho uma admiração enorme pela Madre Teresa de Calcutá e pela sua obra. Ao longo da minha vida sempre foi uma inspiração nos momentos de luz mas principalmente nos momentos difíceis. Um exemplo de FÉ quando vivia por dentro uma enorme solidão e escuridão. Sempre me perguntei como é que é possível alguém que não recebe consolações durante anos de oração consegue empreender uma obra como a sua? 
O mundo já a reconhecia como alguém que está num outro patamar espiritual e, em 2003, com a sua beatificação pelo Papa João Paulo II foi feito o seu reconhecimento pela Igreja. Este ano, dia 4 de Setembro, vai ser a sua canonização em Roma e passa a ser a Santa Teresa de Calcutá. É tão forte!!!
A minha paixão pela Índia deve-se também às leituras que fui fazendo sobre a futura Santa. E agora, estando aqui em Nova Deli percebo ainda melhor a sua ajuda aos "mais pobres entre os pobres". As suas casas são mesmo para esses: moribundos, leprosos, crianças abandonadas, crianças com todos os tipos de deficiência. Todos aqueles de quem a maioria das sociedades evita o contacto pela dureza e humanidade que revelam.
Agradeço profundamente ao Zé L. por me ter posto em contacto com as Missionárias da Caridade em Setúbal, a tão querida Ir. Rose que fez imediatamente a ponte com as casas em Deli! Outra parte tão tocante e para descobrir desta incredible India!

Monday, 13 June 2016

Até sempre Tio Vicente!


Depois de uma prolongada paragem nesta escrita, estou de volta a Delhi.
Mas não é de Deli nem desta incredible India que vou recomeçar.
Há momentos importantes na vida que já que não fazem parar o mundo, pelo menos fazem-nos parar por dentro e pensar...
É ao meu sogro a quem quero dedicar este primeiro post de recomeço e dizer que foi uma honra e um privilégio ter sido sua nora. Obrigada, Tio Vicente! 
Para a família ficam inúmeras memórias, para mim apenas algumas mas daquelas que enchem por dentro e para o mundo a celebérrima "Moda das tranças pretas".
E agora silêncio, porque se vai cantar o fado!


Wednesday, 6 April 2016

"Eat, pray and love"

Passados sete anos, exatamente sete anos, volto a pegar no livro Eat, pray and love.
Elizabeth Gilbert é uma mulher à procura de tudo, mas acima de tudo à procura do mais importante da vida. Assim, decide partir nesta aventura em que a cada um dos verbos corresponde um país: Itália, India e Indonésia, respetivamente.
Agora que estou a entrar na parte da Índia, no livro e na vida, aqui fica esta sugestão. Não vou adiantar mais  para não perder a graça.

Ps - Sandra M. há sete anos mostraste-me este livro que me encheu na altura. Hoje, sinto-me mesmo a transbordar!!! Dhanyawad que quer dizer obrigada.

Friday, 1 April 2016

"The Lunchbox": a iniciativa mais genial da Índia!

Uma iniciativa fascinante que só acontece na Índia, mais precisamente, na cidade de Bombaim. Uma ideia completamente inovadora que começou no fim do sec. XIX e que surge para responder à necessidade de almoçar fora de casa. Absolutamente brilhante!
Dabba significa lancheira, normalmente cilíndrica e de alumínio Dabbawala é aquele que distribui as lancheiras. São envolvidos nesta distribuição entre 4 mil e 5 mil Dabbawalas. 
Mahadeo Havaji Bachche foi quem começou um serviço de distribuição, em 1890, com cem homens. Depois em 1930, tentou fazer de forma informal uma união de dabbawallas. Em 1956, um trust de caridade registou esta iniciativa com o nome de Nutan Mumbai Tiffin Box Suppliers Trust. E em, 1968, este trust foi registado como Mumbai Tiffin Supplier's Association. Hoje, o seu presidente é Raghunath Medge.
A distribuição é feita de bicicleta ou de comboio. O Dabbawalla recolhe a lancheira em casa do trabalhador ou em mini restaurantes que preparam as lancheiras. E como há muitos Dabbawallas que não sabem ler, há um processo de identificação das lancheiras com cores e símbolos. Diz-se que os Dabbawallas nunca se enganam. Parece que fazem menos de um erro por cada seis milhões de entregas, o que não está cientificamente comprovado, mas para dizer que raramente há erros. 
Vale mesmo a pena ver o filme porque nunca vi nada tão genial como esta iniciativa que mobiliza e implica tantas, tantas pessoas.
Lá está, this incredible India!

PS - Obrigada Paulo C. pelo filme!